sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Sou um guardador de Rebanhos
O Rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar numa flôr é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu ser deitado na Realidade,
Sei da verdade e sou feliz.
Alberto Caeiro
sábado, 8 de setembro de 2007
Fico imune á tua beleza, quando passas por mim na rua
Na rua que acolhe os meus passos
Na rua onde me torno vagabundo e pobre.
Já sinto saudades da casa, da casa que não é minha,
Da cama que dava hábito ao meu corpo.
Já sinto saudades dos sonhos,
Dos meus sonhos que se transformavam em ares quentes que em mim prenoitam.
Já sinto saudade do Amor,
Das pétalas das flores a descerem sobre nós.
A noite cresce,
Fica tão grande quanto a Lua,
Fica gélida mas um pouco menos fria,
E os meus desejos aumentam
Ficam tão grandes quanto o Sol.
Imagino-te nua, na minha cama
Na minha cama onde todas as noites me deito,
Onde o meu corpo tem sede e fome de outros corpos.
Imagino-te nua, sem roupa, sem nada a cobrir o teu belo corpo,
Imagino-te sozinha, sem sitio para onde ires.
Novo dia nasce...
Novo sol se ergue...
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Poema
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
Mário Cesariny
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Sinto a sua falta
Ou se não fosse ela mais um elemento da Saudade
Ou se não fosse ela uma Companhia.
As suas palavras ainda estão bem presentes no chão,
As suas pegadas e o seu sorriso ainda estão existentes no ar.
De mãos entrelaçadas percorríamos o rio e as suas margens.
Oferecia-lhe uma flor como um jeito de afecto,
Colocava-a no seu cabelo liso como as águas do mar,
E íamos assim caminhando sem saber por onde.
A Saudade é combatida com beijos e ternuras desta vez numa outra parte do dia
O Dia que também recorda essa tua ausência
E que me pergunta quando iremos outra vez caminhar por essa rua acima.
A Saudade vai crescendo, vai ficando mais forte, vai tornando-se assim numa Companhia.
É algo que não se vê mas se sente,
É algo que passa de um pensamento e faz o tempo voar,
É uma pedra silenciosa que existe no interior da Alma.
É uma Companhia que vai do dia á noite e da noite á Nostalgia.
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Voz

Por vezes esquecemo-nos da Voz. Esquecemo-nos dela ou simplesmente não lhe damos ouvidos, esquecemo-nos que ela vem directamente do Coração e que presta ordens do Cérebro. Ao que o Coração diz respeito a voz sente as coisas verdadeiras, as nossas lembranças de Criança, os afectos e transmite-nos a maneira ideal para nos expressarmos. Ao que o Cérebro diz respeito a Voz é como se fosse a sua escrava obedece e diz-nos o que ele quer de melhor para o Corpo.
A Voz vai connosco, para as várias etapas da nossa vida, cresce connosco, fica mais forte, tem um ruído mais patente ao longo dos anos e consegue ser uma grande aliada em guerras e batalhas. A Voz é uma força da Natureza que dá poder, dá respeito, basta nós sabermos usá-la. A Voz cresce, a voz fica connosco é pena nós esquecermo-nos dela durante o Caminho.
A Voz é um ser dentro de um Corpo. A Voz é um pedaço de Alma.
Saio...
A rua está deserta,
Não há nada, não há ninguém.
As pessoas conspiram atrás das portas,
Como se tivessem medo de sair.
O monstro anda á solta mas precisa de gritar,
Precisa de uma espada para lutar.
Outra vez o mesmo viver o mesmo.
Apenas uma imagem faz voltar o passado,
Apenas uma recordação daquilo que fui e daquilo que sou.
O corpo anda pela casa, pela rua
Sente o mar a trazer de volta os seus passos.
O Ser imortal que habita o Corpo
O Ser imortal que habita e parte
Quando a morte chega.
E no final a Alma, a Esperança, o Respeito, a Luta,
A Alma que quer voltar.
A Alma que sacia os teus lábios,
E que recorda as tuas lágrimas.
O Silêncio que termina no ar.
O Silêncio que acaba,
O Silêncio que recomeça no fechar dos teus olhos.


